Um mercado próximo que exige estratégia própria

O Paraguai deixou de ser apenas um mercado de fronteira para se tornar uma plataforma relevante de negócios no centro da América do Sul. A proximidade cultural e geográfica com o Brasil, a participação no Mercosul, a disponibilidade de energia elétrica de origem majoritariamente renovável e uma estrutura tributária competitiva formam um conjunto favorável à expansão empresarial. Entretanto, proximidade não significa simplicidade. Cada setor possui regras próprias, e um projeto bem-sucedido precisa combinar conhecimento do mercado, presença local, conformidade regulatória e implantação progressiva.
O ambiente econômico oferece razões concretas para atenção. Segundo o Banco Central do Paraguai, o Produto Interno Bruto cresceu 6,6% em 2025, impulsionado por serviços, agricultura, eletricidade, água, indústria e construção. Para 2026, o BCP projetou expansão de 4,2% e inflação de 3,5% em seu Informe de Política Monetária. Em paralelo, o Banco Mundial estima crescimento médio de 4,3% entre 2026 e 2028. Esses números não eliminam riscos, mas indicam demanda interna dinâmica e continuidade dos investimentos.
O marco para o capital estrangeiro também é atrativo. A Lei nº 117/1991 assegura igualdade de tratamento entre investimentos nacionais e estrangeiros, liberdade cambial e remessa de dividendos, observada a tributação aplicável, conforme síntese oficial da REDIEX, vinculada ao Ministério da Indústria e Comércio. Para projetos elegíveis, a Lei nº 60/1990 pode conceder benefícios sobre bens de capital e determinados investimentos produtivos, mas sua aplicação depende de aprovação e não deve ser presumida no plano financeiro.

Constituição da empresa e realidade tributária
A Empresa por Ações Simplificadas, ou EAS, constitui alternativa eficiente para a entrada inicial. O Sistema Unificado de Abertura e Fechamento de Empresas — SUACE informa que o procedimento é eletrônico e, quando utilizado o estatuto padrão sem pendências, pode ser concluído em 72 horas úteis. Estrangeiros podem ser acionistas, porém, se não possuírem cédula paraguaia ou residência permanente, precisam designar representante legal habilitado no país, mediante poder devidamente formalizado, apostilado e traduzido quando expedido no exterior.
É fundamental não confundir rapidez de constituição com autorização para operar. A própria EAS pode exercer atividades lícitas, mas setores sujeitos a regulação especial dependem de licenças adicionais. Também serão necessários Registro Único de Contribuintes, patente municipal, registros trabalhistas e, conforme o objeto, habilitações sanitárias, ambientais, aduaneiras, elétricas ou de transporte.
No regime geral, o Imposto de Renda Empresarial — IRE possui alíquota de 10%. O IVA opera, em regra, com alíquotas de 5% e 10%, conforme o produto ou serviço. A distribuição de dividendos a não residentes está sujeita ao IDU de 15%, segundo a Direção Nacional de Receitas Tributárias — DNIT. No regime geral do seguro social, o aporte patronal ao Instituto de Previdência Social é de 16,5% sobre os salários cotizados, conforme tabela do IPS. Portanto, a expressão “tributação baixa” precisa ser convertida em cálculo completo, incluindo impostos, encargos, licenças, custos bancários e remessas internacionais.

Representação comercial: a melhor porta de entrada
Entre as áreas analisadas, a representação comercial oferece a implantação mais rápida e menos intensiva em capital. Uma empresa brasileira pode começar identificando fabricantes e prestadores que desejem acessar o mercado paraguaio, realizando prospecção, desenvolvimento de canais, negociação institucional e gestão de contas. Há espaço em equipamentos médicos, alimentos, soluções de eficiência energética, climatização, componentes industriais, tecnologia e serviços empresariais.
O potencial decorre tanto do crescimento da demanda quanto da abertura comercial. As importações paraguaias cresceram 9,4% até setembro de 2025, em comparação com o mesmo período anterior, de acordo com o BCP. O Brasil, por sua vez, permanece entre os principais parceiros do país. Essa relação favorece empresas capazes de traduzir produtos brasileiros para as condições comerciais, tributárias e culturais paraguaias.
O modelo recomendável é iniciar com estrutura enxuta em Assunção, combinando direção comercial, relacionamento institucional e parceiros técnicos. O contrato deve definir território, exclusividade, metas, comissões, responsabilidade por assistência técnica, proteção da carteira, uso de marca, prazo e solução de conflitos. Se a representante também importar, armazenar, distribuir ou prestar serviço regulado, surgirão obrigações adicionais. A dificuldade principal não é abrir a empresa, mas conquistar confiança, formar rede local e demonstrar capacidade de pós-venda. No Paraguai, presença pessoal e continuidade do relacionamento têm peso decisivo.

Logística: vocação regional e gargalos reais
A posição mediterrânea do Paraguai produz uma aparente contradição: aumenta a dependência de corredores internacionais, mas cria demanda permanente por operadores eficientes. A Hidrovia Paraguai–Paraná conduz mais de 80% do comércio exterior paraguaio, segundo a Administração Nacional de Navegação e Portos. O Corredor Rodoviário Bioceânico tende a ampliar as conexões entre Brasil, Paraguai, Argentina, Chile e portos do Pacífico, sendo tratado pelo Ministério da Indústria e Comércio como instrumento para posicionar o país como centro regional logístico e energético.
As oportunidades incluem gestão de transporte, armazenagem, consolidação de cargas, operação aduaneira, logística para o agronegócio, distribuição urbana, cadeia fria e soluções tecnológicas de rastreamento. Para uma empresa brasileira, o caminho de menor risco é atuar inicialmente como integradora 3PL, contratando transportadores e armazéns homologados, antes de adquirir frota e instalações próprias.
A operação exige disciplina regulatória. Todos os caminhões precisam de habilitação para circular nas rotas nacionais, conforme a DINATRAN, e o transporte internacional requer permissões próprias. Importadores, despachantes e demais participantes do comércio exterior devem observar os registros e sistemas da DNIT. A certificação voluntária de Operador Econômico Autorizado pode proporcionar simplificação e prioridade aduaneira.
As dificuldades incluem variação dos níveis dos rios, filas fronteiriças, infraestrutura desigual fora dos principais eixos, dependência de terceiros, custos de seguro e capital de giro. Por isso, prazo de entrega não deve ser prometido sem matriz de rotas alternativas, indicadores de nível de serviço, monitoramento documental e contingência hidroviária e rodoviária.

Saúde: demanda relevante sob regulação rigorosa
Na saúde, as possibilidades abrangem clínicas ambulatoriais, diagnóstico, telemedicina integrada a atendimento presencial, assistência domiciliar, gestão de benefícios, fornecimento de equipamentos e programas corporativos. A comunidade brasileira residente no país e as relações transfronteiriças podem facilitar a aquisição inicial de clientes, mas o serviço deve ser concebido para o sistema paraguaio, em espanhol e com profissionais legalmente habilitados.
O Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social determina que estabelecimentos de saúde, atividades afins e tecnologias sanitárias sejam submetidos a avaliação de suas condições físicas, equipamentos e recursos humanos. Profissionais formados no exterior precisam cumprir reconhecimento documental, registro e habilitação; uma licença brasileira, isoladamente, não autoriza o exercício em território paraguaio. Medicamentos, dispositivos médicos e produtos para diagnóstico podem depender de registro, autorização de importação e estabelecimento habilitado pela DINAVISA.
Assim, telemedicina não deve ser tratada como simples exportação digital de consulta. É necessário validar quem presta o ato médico, onde ele juridicamente ocorre, como se dá a prescrição, qual serviço realizará o atendimento presencial, como serão protegidos os dados e qual será a resposta a urgências. O modelo mais seguro é uma parceria clínica binacional: plataforma e protocolos da empresa brasileira, operação assistencial paraguaia habilitada e rede local de retaguarda. A saúde apresenta alto potencial, mas também o maior risco reputacional e jurídico entre os setores analisados.

Energia renovável: oportunidade em transição regulatória
O Paraguai possui forte base hidrelétrica, porém crescimento do consumo, expansão produtiva e necessidade de confiabilidade abrem espaço para energia solar, biomassa, armazenamento, eficiência energética e gestão de demanda. Para empresas de serviços, as oportunidades mais imediatas estão em sistemas fotovoltaicos para autoconsumo, auditorias energéticas, engenharia, instalação, manutenção e soluções híbridas para indústrias, propriedades rurais, hospitais, centros comerciais e operações logísticas.
O marco vigente mudou recentemente. A Lei nº 7.599/2025 substituiu a Lei nº 6.977/2023 e foi regulamentada em 2026. Segundo a Administração Nacional de Eletricidade — ANDE, a norma estabelece condições para autogeração, cogeração, geração e exportação de energia e acompanha projetos de diversificação da matriz. Isso representa avanço, mas exige leitura atualizada dos regulamentos, das categorias de licença, dos procedimentos de conexão e dos contratos aplicáveis.
O investidor deve separar dois modelos. A venda de equipamentos e a implantação de solução atrás do medidor podem iniciar por projetos-piloto e economia comprovada. Já a geração destinada à comercialização exige análise regulatória, ambiental, fundiária, de conexão, escoamento e bancabilidade. Projetos sujeitos a impacto ambiental deverão observar a Lei nº 294/1993 e os procedimentos do MADES. A oportunidade é consistente, porém o fluxo de receita não deve depender de interpretação ainda não confirmada pela autoridade competente.

Refrigeração: serviço essencial e ambientalmente sensível
Refrigeração e climatização conectam todos os demais setores. Frigoríficos, supermercados, restaurantes, hotéis, hospitais, farmácias, centros de distribuição e transportadores dependem de cadeia fria confiável. O crescimento das exportações de carne reforça essa base: em 2025, a carne bovina paraguaia chegou a 54 países, segundo o BCP. Há espaço para projeto, instalação, manutenção preventiva, monitoramento remoto, retrofit energético, locação de equipamentos e contratos por desempenho.
Entretanto, o negócio está sujeito à transição ambiental dos fluidos refrigerantes. O Paraguai iniciou a primeira etapa do plano da Emenda de Kigali para reduzir HFCs, com meta de redução de 85% do consumo até 2040, conforme o MADES. Técnicos devem ser capacitados para substâncias alternativas, segurança, recuperação e prevenção de vazamentos. O INTN mantém certificação de competências para manejo de refrigerantes.
Uma empresa estrangeira deve trabalhar com técnicos certificados localmente, verificar licenças de importação e cotas para substâncias controladas, manter rastreabilidade dos gases e adotar contratos de manutenção com indicadores de temperatura, consumo, vazamento e tempo de resposta. O risco técnico é elevado: uma falha pode destruir estoque, interromper cirurgia, comprometer medicamento ou causar dano ambiental.

Avaliação estratégica e caminho de implantação
O potencial dos cinco setores é real, mas recomenda-se uma ordem prudente de entrada. Primeiro, representação comercial e desenvolvimento de negócios, com baixo ativo imobilizado e aprendizado acelerado. Segundo, logística integrada e refrigeração por meio de parceiros homologados e contratos-piloto. Terceiro, serviços de energia para autoconsumo e eficiência, condicionados à validação técnica e regulatória. Por último, saúde assistencial, que deve avançar somente após a estrutura binacional, os registros profissionais e a retaguarda clínica estarem formalizados.
Nos primeiros 60 dias, a empresa deve validar clientes, concorrentes, preços, canais, municípios e licenças com assessoria jurídica, contábil e técnica paraguaia. Entre 60 e 120 dias, deve constituir a entidade adequada, abrir contas, registrar-se perante os órgãos necessários, contratar equipe local e executar de dois a três pilotos. Entre 120 e 180 dias, poderá medir margem, recorrência, inadimplência, custo de aquisição, nível de serviço e conformidade antes de investir em frota, clínica, estoque ou geração própria.

Conclusão
O Paraguai apresenta uma combinação favorável de crescimento, proximidade com o Brasil, abertura ao capital estrangeiro e demanda por serviços empresariais mais especializados. Não se trata, contudo, de um mercado para simples replicação do modelo brasileiro. A vantagem competitiva estará na capacidade de adaptar contratos, licenças, equipe, idioma, atendimento e tecnologia à realidade local.
Para a INTHEUS e seus parceiros, a estratégia mais segura é posicionar-se inicialmente como articuladora de negócios, integradora de soluções e formadora de parcerias paraguaias. O investimento físico deve ocorrer apenas depois que o mercado e o licenciamento forem comprovados. Com governança, presença local e implantação por etapas, representação comercial, logística, saúde, energia renovável e refrigeração podem formar um ecossistema complementar, capaz de atender empresas paraguaias, brasileiras e operações regionais. O Paraguai oferece oportunidade concreta; o diferencial será transformar proximidade em execução profissional, regular e sustentável.
Essa abordagem preserva capital, reduz riscos e aumenta a qualidade das decisões.

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