Apresentação
Nos últimos anos, as regras do comércio internacional passaram por uma inflexão significativa. A lógica da abertura ampla e previsível cedeu espaço a políticas industriais assertivas. Instrumentos climáticos com efeito tarifário também surgiram. Além disso, medidas de segurança econômica foram implementadas. Essa combinação desenha um “novo protecionismo” estrutural.
Para o Brasil, que é um grande exportador de commodities agrícolas e manufaturas de base, essa reconfiguração traz riscos imediatos. Estes incluem aço, alumínio, celulose e químicos. Também oferece oportunidades condicionadas à capacidade de adaptação regulatória e tecnológica.
As frentes tarifárias que mais tocam o Brasil

1) Estados Unidos: alta generalizada de tarifas e cotas em metais
Em 2025, Washington ampliou substancialmente alíquotas sob justificativas de segurança econômica e industrial.
As tarifas de Seção 232 sobre aço e alumínio foram elevadas para 50% para a maioria dos países. Existem algumas exceções pontuais. Enquanto isso, Brasil, Argentina e Coreia seguiram sob regime de cotas absolutas trimestrais. Na prática, isso limita volumes e comprime margens da siderurgia brasileira, com efeitos indiretos sobre mineração e logística.
Além disso, uma ordem executiva recente nos EUA impôs tarifa de 50% sobre um amplo conjunto de importações brasileiras. No entanto, há listas de isenções setoriais, como suco de laranja e celulose. Isso eleva a incerteza e o custo de acesso em cadeias onde o Brasil vinha ampliando participação. Estimativas oficiais brasileiras indicaram que cerca de 35,9% do valor exportado aos EUA ficaria sujeito à tarifa majorada. Já 44,6% manteriam a tarifa anterior de 10%. Esses números sinalizam uma mudança relevante de preço relativo e planejamento comercial.
2) União Europeia: regulação climática com efeito tarifário (CBAM) e regras de desmatamento (EUDR)
O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) já está em fase transitória de reporte (desde 2023) e entra em regime definitivo em 2026, com pagamentos previstos a partir de 2027. Setores como ferro e aço, alumínio, cimento, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio serão impactados. Isso exigirá mensuração robusta de emissões. Na prática, isso impõe um “preço de carbono” implícito às exportações desses segmentos. Estudos de mercado estimam custos adicionais relevantes no curto prazo para cadeias de aço e alumínio. Tandfonline+3Taxation and Customs Union+3OPIS, A Dow Jones Company+3
Já a Regulamentação Antidesmatamento (EUDR) está em vigor desde 2023. No entanto, um novo adiamento de implementação plena foi anunciado para 2025 devido a questões técnicas de TI. Ainda assim, a direção de viagem permanece. Commodities como café, cacau, borracha, madeira, soja e carne precisarão comprovar “desmatamento zero”. Isso será feito por meio de rastreabilidade geoespacial até o talhão. Essa exigência pressiona cadeias brasileiras. Ela afeta sobretudo pequenos e médios produtores sem sistemas de compliance estruturados.
3) A (in)definição Mercosul–UE
O acordo Mercosul–UE — negociado por décadas — segue cercado de exigências ambientais e cláusulas assimétricas. Mesmo com avanços e versões “revisadas”, o balanço custo–benefício permanece controverso e a previsibilidade regulatória, limitada. Para a indústria e o agro brasileiros, isso significa que a diversificação para a Europa continuará condicionada. Será necessário atender a padrões técnicos rigorosos. Esses padrões serão cada vez mais climáticos. Existe incerteza sobre a entrada em vigor e prazos de adaptação.
Por que isso importa: canais de transmissão para a economia brasileira

Agronegócio: metade da pauta exportadora
O agro responde por cerca de 49% das exportações totais do Brasil. Em 2024, o setor alcançou US$ 164,4 bilhões segundo o MAPA (dados oficiais). Isso ocorreu mesmo com preços internacionais mais baixos. Isso torna o setor altamente sensível a mudanças de regras nos grandes mercados (EUA e UE). Produtos como soja, carnes e café são os mais expostos a EUDR. Papel, celulose e madeiras também estão expostos a custos logísticos adicionais para compliance.
Indústria de base: aço, alumínio, químicos e materiais
Para a indústria, o CBAM aumenta o custo de acesso. As medidas norte-americanas (Seção 232 e tarifas ampliadas) também elevam este custo. Essas medidas podem deslocar o Brasil em mercados de maior valor agregado. O efeito típico inclui a compressão de margens pela tarifa/cota. Outra consequência é a necessidade de CapEx em descarbonização para manter competitividade na UE. Há também a repactuação de portfólios de clientes e contratos.
Reconfiguração de fluxos globais
A Europa tem endurecido regras climáticas. Os EUA reforçam a política industrial. A Ásia — em especial a China — permanece como principal destino das exportações brasileiras. Quase metade do total por valor segue para a Ásia. A depender de preços e câmbio, a realocação de volumes tende a priorizar mercados com menor barreira regulatória. No entanto, isso aumenta a dependência de poucos compradores. Além disso, a volatilidade de preços também cresce.
Exemplos setoriais recentes
— Couro: a indústria brasileira viu queda acentuada de preços internacionais. Essa queda ocorreu por competição com sintéticos e questões de qualidade/traceabilidade. Isso é um sinal de como preferências regulatórias e de mercado podem afetar cadeias tradicionais.
— Café, açúcar e carne: sob a tarifa ampliada dos EUA, segmentos do agro reportam risco de perda de mercado. Isenções mitigam apenas parcialmente.
O que muda no “Custo Brasil” das exportações

- Custo regulatório: conformidade com CBAM (inventário de emissões, dados primários, auditorias) se torna parte do custo fixo. Conformidade com EUDR (georreferenciamento, due diligence de desmatamento) também se torna parte do custo fixo. Isso se aplica ao acessar UE. Este pode, potencialmente, incluir outras jurisdições que venham a replicar modelos semelhantes.
- Risco tarifário residual: nos EUA, mesmo com isenções parciais, há incerteza sobre listas e prazos. Isso aumenta o “desconto” exigido por importadores. Essa incerteza pressiona o capital de giro e encarece o hedge comercial.
- CapEx verde: setores intensivos em energia e processo (siderurgia, alumínio, fertilizantes, papel e celulose) precisarão acelerar rotas de baixo carbono. Essas rotas incluem eletrificação, biomassa sustentável, H₂ e captura de carbono. Isso é necessário para permanecer competitivos no preço final “posto UE”.
- Governança de dados: o novo compliance exige integração fina entre dados de campo, indústria e logística. Isso inclui polígonos georreferenciados, CAR, GTAs, certificados, notas fiscais, MTRs, e inventários GEE. Há necessidade de auditabilidade ponta a ponta.
Recomendações por ator econômico

Produtores rurais e cooperativas
- Rastreabilidade geoespacial por talhão e por lote. A integração deve ser feita com CAR, mapas de satélite e registros de manejo. É importante priorizar áreas consolidadas. Devemos evidenciar a ausência de conversão recente.
- Cadeias segregadas para UE (EUDR-ready): contratos com tradings exigindo georreferenciamento e auditorias independentes; formalizar protocolos de não-conversão. f
- Pré-qualificação para mercados com tarifa elevada (EUA): simular impacto de tarifas por produto e priorizar nichos com isenções ativas (p.ex., celulose e suco de laranja) enquanto durar o regime.
Agroindústrias e tradings
- Due diligence de fornecedores com score de risco (bioma, histórico fundiário, embargos). Também é necessário um contrato de repasse de obrigações EUDR. Implementar contabilidade de emissões compatível com CBAM, usando dados primários. Deve-se considerar o fator de emissão específico.
- Diversificação de destinos: calibrar portfólios entre Ásia. Ela apresenta menor barreira regulatória e maior concentração de demanda. Já a UE/EUA tem maior exigência. Contudo, oferecem margens potencialmente superiores após compliance.
- Estratégia de pricing: criar cláusulas contratuais que repassem custos regulatórios (carbono/compliance) quando possível.
Indústrias de base e manufaturas
- Mapa CBAM por produto/cliente: consolidar inventários de emissões “cradle-to-gate”. Identificar “hotspots” (energia térmica, insumos). Priorizar projetos de redução com melhor payback.
- Gestão de cotas e quotas (EUA, metais): planejamento trimestral de embarques para não “estourar” janelas. Isso evita tarifa punitiva. Uso de armazéns e contratos flex para suavizar sazonalidade. U.S. Customs and Border Protection
- Adensamento tecnológico: avançar para produtos semiacabados/transformados com maior elasticidade de preço, reduzindo exposição ao “commoditization discount”.
Logística, portos e terminais
- Data pipeline: integrar sistemas TOS/portuários a bases de rastreabilidade (satélite, CAR, NF-e) para gerar “evidências EUDR” desde a origem. Isso vai facilitar auditorias. farmdoc daily
- Capacidade de segregação: pátios dedicados para cargas “EUDR compliant” e rotulagem digital por lote.
Governo e entidades setoriais
- Diplomacia econômica técnica: negociar equivalências e guias operacionais com a UE para EUDR. Isso simplifica o reporte para pequenos. Além disso, defende previsibilidade nas listas de isenção dos EUA.
- Infra de dados públicos: consolidar cadastros fundiários e ambientais interoperáveis, com APIs abertas para compliance privado e auditoria independente.
- Financiamento verde: linhas de crédito e garantias para CapEx de descarbonização e rastreabilidade (cooperativas e MPMEs).
Como a INTHEUS pode ajudar — soluções práticas e mensuráveis

1) Gestão de riscos tarifários e regulatórios
- Radar de Tarifa & Cota: monitoramento diário de mudanças nos EUA. Isso inclui tarifas amplas, Seção 232 e cotas trimestrais. Na UE, abrange CBAM/EUDR. Inclui também um simulador de impacto por NCM/HS, cliente e destino. Entregável: relatório mensal com cenários de margem e recomendações de alocação de vendas.
2) Compliance EUDR “end-to-end”
- Arquitetura de rastreabilidade do talhão ao porto: georreferenciamento, checagem de desmatamento via satélite. Integração com CAR/GTAs/notas fiscais é realizada. Geração de dossiês “EUDR-ready” para cada lote. Entregável: pacote de evidências auditável para compradores na UE.
3) Preparação para CBAM
- Inventário de emissões com dados primários. Cálculo de fator de emissão específico por instalação. Plano de redução (eficiência térmica, combustíveis renováveis, eletrificação). Entregável: baseline verificado e roadmap de CAPEX com payback.
4) Estratégia comercial e de portfólio
- Rebalanceamento de destinos entre Ásia/UE/EUA com base em barreiras, preços e elasticidades. É necessário estruturar cláusulas contratuais para repasse de custos regulatórios. Entregável: pipeline de clientes por região com precificação alvo e metas de share. World’s Top Exports
5) Financiamento e garantias
- Assessoria para captar linhas de financiamento verde. Também oferecem capital de giro atrelado a metas de compliance (KPIs de rastreabilidade e emissões). Isso reduz o custo financeiro do ajuste.
Roteiro de 180 dias para exportadores brasileiros

- Diagnóstico de exposição (30 dias): mapear por NCM produtos afetados por tarifas e regulações. Medir participação de UE/EUA na receita e margem. Rodar cenários de preço.
- Projeto EUDR (até 90 dias): Consolidar a base geoespacial de fornecedores. Checar passivos ambientais. Formalizar compromissos de não-conversão. Montar dossiês padrão por lote.
- Projeto CBAM (até 120 dias): inventário GEE com dados primários. Inclui o plano de redução e a governança de dados. Também abrange a prontidão para o regime definitivo. T
- Gestão de cotas/fluxos EUA (contínuo): sincronizar embarques às janelas de quota; negociar isenções e priorizar produtos com menor impacto tarifário.
- Revisão comercial (trimestral): diversificar destinos mantendo disciplina de margem; reavaliar mix produto–mercado conforme evolução regulatória.
Considerações finais: prudência estratégica, execução disciplinada

O cenário global de tarifas e regulações é menos sobre “se” e mais sobre “como” o Brasil se adapta. A boa notícia é que o País já dispõe de vantagens competitivas. Essas incluem escala agrícola, matriz florestal para biomassa e celulose, e uma base industrial com potencial de eficiência. Quando esses elementos são acoplados a sistemas de dados confiáveis e investimentos direcionados, eles se convertem em vantagem comercial sustentável. A agenda é eminentemente técnica: rastreabilidade, contabilidade de carbono, gestão de riscos e governança de cadeias. Nesse terreno, previsibilidade e tempo valem dinheiro. Quem se adianta captura prêmio de mercado. Quem espera paga tarifa — ou perde o cliente.

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